Cisto Tireoglosso

Neste artigo vamos comentar sobre o Cisto Tireoglosso (ou cisto do ducto tireoglosso), uma lesão benigna particularmente rara, mas que pode preocupar algumas pessoas e que deve ser investigada para descartar outras doenças. Apesar de ser um acontecimento raro, o Cisto Tireoglosso é o cisto congênito de pescoço mais comum no ser humano.

Cisto Tireoglosso

Forma de apresentação clínica do cisto tireoglosso. Normalmente, encontramos apenas uma massa palpável na região do pescoço. Cortesia do Dr. Ian Bickle, Radiopaedia.org. Do caso sobre cisto tireoglosso.

O que é o Cisto Tireoglosso?

Primeiramente, precisamos explicar o que é um cisto. Um cisto nada mais é do que um saco delimitado por uma membrana biológica, que geralmente é composta por células. Diferente de uma massa sólida, um cisto tem uma cavidade em seu interior, que pode contar apenas ar, líquidos ou ainda um material semissólido. Podem surgir cistos dos mais variados tipos no corpo humano, compostos por diferentes tipos de células e com materiais variados em seu interior. Exemplos de cistos mais comuns do que o Cisto Tireoglosso incluem cistos sebáceos na pele e cistos de ovário.

Já o Cisto Tireoglosso é um cisto fibroso formado como consequência de uma variação anatômica que chamamos de ducto tireoglosso persistente. Vamos entender o que é isso? Quando nós estamos nos desenvolvendo durante a gestação, nossa tireoide é formada próximo à nossa língua, na região chamada de orofaringe. Com o desenvolver do feto, essa tireoide vai migrar, descendo pelo pescoço por esse ducto, até atingir a sua posição final, que fica no pescoço, entre a cartilagem tireoidea (que contém o “pomo-de-adão”, principalmente nos homens) e a fúrcula esternal.

O que causa o Cisto Tireoglosso?

Quando a tireoide terminou de migrar da base da língua até o pescoço, esse ducto tireoglosso deve atrofiar e desaparecer. Em algumas pessoas ele não atrofia e, assim, temos o ducto tireoglosso persistente, que pode dar origem a um Cisto Tireoglosso! A imagem ao lado mostra o caminho percorrido pela tireoide migrando no desenvolvimento fetal. É nesse caminho que costuma estar localizado o ducto tireoglosso persistente.

Portanto, podemos dizer que a causa do Cisto Tireoglosso é o ducto tireoglosso persistente. Esse cisto é, portanto, de origem congênita, ou seja, desenvolve-se no período gestacional, antes do nascimento.

Sintomas

O principal sintoma do Cisto Tireoglosso é uma massa palpável na região do pescoço, na linha média. Esse cisto geralmente é indolor e macio. Porém, como o ducto tireoglosso tem relação com a língua e com a faringe, ele pode eventualmente infeccionar, causando vermelhidão e dor na região, que pode vir acompanhada também de dificuldade para respirar, disfagia (dificuldade para engolir) e dispepsia (sensação de indigestão), principalmente se o cisto aumentar muito de tamanho.

Diagnóstico

Na maioria das vezes, o ducto tireoglosso persistente passa desapercebido durante anos e é diagnosticado apenas na vida adulta, quando costuma surgir ou crescer o Cisto Tireoglosso.

Quando encontramos uma massa na região do pescoço, podemos imaginar uma série de diagnósticos. É preciso, primeiramente, descobrir as características dessa massa, ou seja, se ela é sólida ou cística e qual o tipo de tecido e células a compõe. O exame mais comum para fazermos essa diferenciação é o ultrassom (ecografia).

Ducto Tireoglosso Persistente

A seta verde aponta a região de migração da tireoide e, portanto, a localização do ducto tireoglosso persistente. Cortesia do Dr. Frank Gaillard, Radiopaedia.org. Do caso Diagrama do ducto tireoglosso

Normalmente, detectando-se a massa na ecografia, já podemos solicitar a ressecção cirúrgica. Porém, em caso de dúvidas no diagnóstico, podemos ainda solicitar uma tomografia computadorizada ou uma ressonância magnética.

Devemos diferenciar um cisto tireoglosso com tireoide ectópica (presença de tecido tireoideo fora da região em que a tireoide normalmente se localiza), lindonodomegalia (linfonodos aumentados), cistos dermoides e bócio (aumento da tireoide).

Além disso, é comum que, antes de qualquer cirurgia, sejam solicitados exames de avaliação da tireoide, como a cintilografia com iodo radioativo, que irá mostrar a localização da tireoide. Isso é importante para diferenciar o cisto tireoglosso da tireoide ectópica e evitar a retirada completa da tireoide, o que causaria uma série de problemas endocrinológicos.

Tratamento do Cisto Tireoglosso

Assim que detectado, o Cisto Tireoglosso costuma ser tratado com a remoção cirúrgica do cisto juntamente com o ducto tireoglosso persistente. Esta é a chamada cirurgia de Sistrunk, que retira também a porção anterior do osso hioide, no pescoço, que irá garantir a remoção completa do ducto persistente. Existem ainda outros procedimentos cirúrgicos que podem ser utilizados, como a cirurgia de Sistrunk modificada, a cistectomia e a cirurgia de Schlange.

Se houver infecção do cisto tireoglosso, é também possível que seja prescrito o uso de um antibiótico antes da cirurgia, para tratar antes essa infecção e facilitar a operação cirúrgica.

Este foi nosso artigo sobre o Cisto Tireoglosso. Se você tiver quaisquer dúvidas, basta deixar o seu comentário. Até a próxima!

Complicações

O Cisto Tireoglosso pode infeccionar e/ou inflamar em alguns pacientes. Quando isso acontece, surgem sintomas similares a um abscesso: calor e vermelhidão (eritema) no local. Os microorganismos mais envolvidos em infecção do Cisto Tireoglosso são o Haemophilus influenza, o Staphylococcus aureus e o Staphylococcus epidermidis.

Em até 15-34% dos pacientes, pode haver a ruptura do cisto, o que geralmente acontece após uma infecção. É importante ressaltar que essa complicação pode aparecer mesmo depois da cirurgia.

Eu nunca mais vou ter Cisto Tireoglosso depois da cirurgia?

Não. Em até 10,8% dos pacientes o Cisto Tireoglosso pode reaparecer depois da cirurgia em crianças. A cirurgia de Sistrunk, comparada com as outras alternativas, ainda parece ser a que mais evita a recorrência do cisto.

As pessoas que tiveram infecção do cisto antes da cirurgia, ou que não removeram o cisto por completo juntamente com parte da base da língua, ou ainda quem apresentou ruptura do cisto durante a cirurgia têm chance aumentada de apresentar o cisto novamente.

Referências

  1. Longo, D., Fauci, A., Kasper, D., & Hauser, S. (2011). Harrison’s Principles of Internal Medicine 18th edition. McGraw-Hill Professional.
  2. Thyroglossal cyst. Em Wikipedia. Acessado em 07 de Julho de 2015, a partir de http://en.wikipedia.org/wiki/Thyroglossal_cyst.
  3. Thyroglossal duct cyst. Em Radiopaedia. Acessado em 07 de Julho de 2015, a partir de http://radiopaedia.org/articles/thyroglossal-duct-cyst.
  4. Brewis, C., Mahadevan, M., Bailey, C. M., & Drake, D. P. (2000). Investigation and treatment of thyroglossal cysts in children. Journal of the Royal Society of Medicine, 93(1), 18-21. Disponível em: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1288046/pdf/10700841.pdf.


Atenção: o MedSimples é um site de caráter informativo e educativo, não substituindo, em nenhum momento (nem com os artigos, nem com as respostas de comentários) uma consulta médica, sendo esta primordial para se realizar um diagnóstico, tratamento e acompanhamento adequados de qualquer paciente.

13 Comentários

  1. michele bastos

    Boa noite!

    Meu filho de 5 anos foi diagnosticado com cisto tireoglosso e fara a cirurgia.
    Estou muito preocupada. Corre algum risco?
    Pode ficar com sequelas?
    O doutor falou sobre a retirada de um ossinho do pescoço e tambem sobre um caninho que sera colocado, seria uma traqueostomia?

    Muito obrigada!

    • Alan Niemies
      Autor do Artigo

      Olá, Michele. Em qualquer cirurgia existem riscos inerentes ao procedimento. É aquela coisa: não precisamos nem colocar os pés pra fora de casa para já estarmos correndo “riscos”, não é mesmo? Existe a possibilidade, em torno de 10%, de recorrência do cisto depois da cirurgia. As complicações são mínimas nessa cirurgia, geralmente relacionadas aos cuidados com a ferida operatória e à cicatrização. Vale muito mais a pena se submeter à cirurgia do que correr o risco de o cisto infectar ou romper. Existe também a possibilidade (mínima, em torno de 1%) de malignização. O osso que será retirado na cirurgia é o hioide, que fica logo abaixo do “pomo de Adão” ou “gogó”. É um osso em formato circular, parecido com os aneis da traqueia. E fique tranquila, pois o caninho não é uma traqueostomia e sim apenas um dreno, que costuma ficar por apenas alguns dias para retirada de secreções na região, o que evita o acúmulo e infecção. De um modo geral, não precisa ficar preocupada: a cirurgia não é grande e se o seu filho for saudável as complicações são mínimas e raras.

  2. Solange Borges

    Boa noite…meu filho passou pela cirurgia de retirada do cisto tireoglosso à 02 anos, infelizmente o cisto voltou à infeccionar. Só notamos qdo já está bem inflamado e com dor na região e p engolir…ele tem hj 09 anos. O médico mandou seguir normalmente as atividades até a próxima cirurgia, porém existe risco do cisto romper caso ele machuque o pescoço. Ele é hiper ativo. Tenho muito medo.

  3. Michele Bastos

    Poxa muito obrigada dr
    Sucesso para vc!
    É sempre bom encontrar pessoas do bem e dispostas a ajudar!

  4. Joyce

    Boa tarde!
    Meu filho te 16 anos,e está com um caroço um pouco acima do gógó. Pode ser esse cisto que o Dr. Se refere no artigo?

    • Alan Niemies
      Autor do Artigo

      Olá, Joyce. Sim, é possível que seja, mas apenas um médico capacitado poderá fazer o diagnóstico diferencial com outras causas de massas nessa região! Espero ter lhe ajudado e boa sorte. 🙂

  5. Fco Rocha.

    Tenho 36anos e tenho muito medo de cirurgia, mas é tão vergonhoso doutor quando alguém olha pra vc, e logo pergunta: que diabos é isso no teu pescoço? Tenho tanta vergonha de tirar fotografias e sinto que muitas pessoas se afastam de mim depois que sabem do meu problema achando que é contagioso, e de alguns dias pra cá sinto que está doendo. Acho que deve está inflamado, o que eu faço doutor? E me ajude a perder esse medo da cirurgia, pq tenho medo da anestesia que é geral, corre o risco de não acordar mais com essa anestesia? Obrigado pela sua atenção.

    • Alan Niemies
      Autor do Artigo

      Olá, Fco. Veja bem: de um modo geral, a anestesia geral é muito segura. Geralmente, a possibilidade de ocorrer algum problema está menos ligada à anestesia e mais ao procedimento cirúrgico em si. Raramente a anestesia geral dá problemas e, quando ocorrem, não costumam ser graves. Além disso, a cirurgia de Sistrunk não é uma cirurgia complicada. O cisto tireoglosso fica em uma posição relativamente superficial no pescoço e, também, complicações são bastante raras nesse tipo de cirurgia. Como esse problema estético é bastante significativo e ele também pode estar inflamado, é muito importante procurar o auxílio necessário e realizar a cirurgia. Eu, particularmente, não pensaria duas vezes em fazê-la.

      De qualquer forma, espero que possa ter lhe ajudado um pouco e boa sorte, Fco! Obrigado pelo comentário.

  6. Silvia Larissa

    Olá. Fiz a corurgia para retirada do cisto dia 17/10/17, a pouquíssimo tempo. Mas estou com um caroço acima do corte da cirurgia, é normal isso?
    Desde já obrigada…

    • Alan Niemies
      Autor do Artigo

      Olá, Silvia. Isso pode ser normal, sim. Devido à cirurgia do cisto tireoglosso, pode haver um pouco de acúmulo de líquidos na região. Se não estiver doendo ou causando desconforto, aumentando de tamanho ou com sinais de inflamação (ardência, calor e vermelhidão), pode fazer parte do processo normal de recuperação. Se encontrar alguns desses sinais ou se depois de mais alguns dias ele não estiver regredindo, sugiro conversar com o seu médico.

      Um abraço e obrigado pelo comentário!

  7. Meu neto tem onze anos e foi diagnosticado desde maio de 2016, cisto tireoglosso, porém, em razão de greves no único hospital da cidade em São Vicente SP, está sendo adiado, ocorre porém, que o cisto infeccionou e rompeu está saindo pus, levei ao médico que fará a cirurgia no dia sete de novembro e o mesmo disse para tomar antibiótico e lavar o local com água e sabão e retornar somente no dia da cirurgia. A infecção parece que está piorando e para conseguir retorno ao médico é uma guerra. A médica não disse se deveríamos ou não tirar a secreção, para dizer a verdade ela nem levantou da sua cadeira para examinar só olhou de longe e receitou o antibiótico de oiot e oito horas onde a médica disse que é para tomar por quatorze dias, mas no décimo dia será a cirurgia as treze horas do dia sete de novembro e foi dito que era para fazer jejum a partir da meia noite do dia seis de novembro ele deve tomar o antibiótico a meia noite e as oito horas da manhã do dia sete de novembro com pouquíssima água, vez que o jejum e de água também ?

    • Alan Niemies
      Autor do Artigo

      Olá, Rosana. É uma pena que seja tão difícil para você e seu filho receberem uma atenção adequada nesse caso. 🙁

      O ideal seria conseguir entrar em contato com o cirurgião para saber mais detalhes. Porém sugiro, se isso não for possível, que dê a última dose do amntibiótico à meia-noite do dia 06, pois o jejum deve ser completo a partir dessa hora.

      Espero ter ajudado e boa sorte! Se puder, volte aqui para nos contar como foi a cirurgia. 🙂

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