Síncope Vasovagal (Desmaio Comum)

Nesse artigo, vamos falar sobre a principal causa de desmaios na população, em qualquer faixa etária: a Síncope Vasovagal ou “desmaio comum”. Aqui você vai entender o que ela é, quais são as suas causas, quais os seus sintomas e como é feito o seu diagnóstico e tratamento. Você também poderá entender se esse tipo de acontecimento é grave ou não. Vamos lá? Vem comigo!

Síncope Vasovagal

O que é Síncope Vasovagal?

A Síncope Vasovagal é também conhecida como Síndrome Vasovagal, Reflexa, Neuromediada, Neurogênica ou Neurocardiogênica. Todos esses são nomes médicos bonitos, mas na realidade tudo isso significa “desmaio comum“.

“Síncope” significa “desmaio” e indica uma perda transitória e rápida da consciência, causada por uma diminuição do fluxo sanguíneo cerebral.

É importante notar que, para chamarmos uma perda de consciência de Síncope, a recuperação sempre deverá ser rápida e completa. Como veremos mais adiante, isso é importante para diferenciar a Síncope de outras causas de perda de consciência.

A Síncope Vasovagal é, na verdade, um grupo heterogêneo de condições médicas que podem levar à redução transitória desse fluxo cerebral. Ou seja, não existe uma causa comum em todas as pessoas que desmaiam.

Quem é mais afetado?

Assim como em qualquer tipo de desmaio, a Síncope Vasovagal acomete principalmente duas populações: os adultos jovens (20 a 29 anos) e os pacientes idosos, acima de 70 anos. Duas em cada três pessoas que buscam o serviço de emergência por um desmaio irão receber o diagnóstico de Síncope Vasovagal. Além disso, ela é mais comum em mulheres.

Dentre os idosos, ela é ainda muito mais frequente na população institucionalizada (em asilos). Esse tipo de desmaio é ainda três vezes mais comum nos idosos acima de 80 anos do que no resto da população.

Como a Síncope Vasovagal acontece?

Como dissemos no início do artigo, todos os tipos de desmaio ocorrem por uma diminuição no fluxo de sangue que chega ao nosso cérebro. Para você entender melhor o que isso significa, pode ler também o nosso artigo sobre “O que é Pressão Arterial?“.

Para que nosso cérebro receba sangue de maneira adequada, é preciso que nosso corpo mantenha uma pressão sanguínea equilibrada e constante. Para isso, nosso corpo é munido de várias “armas”. Além disso, nós temos um “plano A” para manter o fluxo sanguíneo cerebral e, quando este falha, ainda temos à disposição um “plano B”.

Mecanismo da Síncope Vasovagal

Para manter a nossa pressão arterial constante, todas as artérias do nosso sangue têm um “tônus“. Ou seja, elas não estão nem muito “molengas”, nem muito rígidas. Se estiverem muito “molengas”, chamamos isso de vasodilatação. É o que acontece no calor, por exemplo, quando você pode ver os seus vasos sanguíneos com maior facilidade. Por outro lado, chamamos de vasoconstrição o enrijecimento da parede desses vasos. Tudo isso é possível porque nossas artérias contêm músculo liso em sua parede, e o tônus desse músculo é controlado por feixes nervosos e hormônios como a Vasopressina (Hormônio Antidiurético).

E sempre que nossos vasos entram em uma vasodilatação excessiva, nossa pressão cai. Para tentar compensar isso, temos o plano B: o aumento da nossa frequência cardíaca, que permite que possamos compensar essa queda da pressão arterial.

No caso da Síncope Vasovagal, existe um defeito transitório nesse controle. Por uma série de causas, nosso corpo tem um episódio rápido e transitório de vasodilatação acompanhado de bradicardia, o que não deveria acontecer. Isso leva a uma rápida diminuição do fluxo sanguíneo para nosso cérebro e, assim, temos o desmaio!

Diferente da Hipotensão Ortostática (outra causa muito comum de desmaios), na Síncope Vasovagal há apenas uma falha temporária desse sistema de controle. Já na Hipotensão Postural, esse processo é crônico.

Causas

O desmaio comum é provocado principalmente por:

  • Emoções muito intensas;
  • Dor;
  • Medo;
  • Ansiedade;
  • Ver sangue;
  • Ver ou cheirar algo desagradável;

Esse tipo de desmaio também é provocado por algumas brincadeiras, que inclusive são populares em vídeos do YouTube. Eis alguns exemplos:

  • Respirar rápida e profundamente por alguns minutos e depois prender a saída de ar da boca e narinas e fazer pressão (manobra de Valsalva).
  • Trapaças como pedir para um colega respirar rápida e profundamente por alguns minutos e depois pressionar seu tórax, geralmente por trás ou contra a parede.

Nesse vídeo podemos entender bem como isso funciona e inclusive perceber as características do desmaio simples:

Imagem de Amostra do You Tube

Em outros pacientes, temos a chamada Síncope Situacional ou do Reflexo Visceral, que também é considerado um tipo de desmaio comum ou Vasovagal. Esse tipo de desmaio pode ter várias origens:

  • Origem pulmonar: é o desmaio após um episódio de tosse ou espirro, após levantamento de peso ou por um instrumento de sopro (como o trompete ou o saxofone). Esse tipo de desmaio também é causado pela instrumentação das vias aéreas, durante procedimentos médicos.
  • Origem urogenital: algumas pessoas apresentam episódios de desmaio durante ou logo após a micção. A colocação de um cateter vesical ou estimulação prostática também pode causar desmaio em certas pessoas.
  • Origem gastrointestinal: pode acontecer após engolir líquidos ou alimentos, durante a colocação de sondas nasogástricas, no exame retal ou ainda, em algumas pessoas, durante ou logo após o ato de defecar.
  • Origem no seio carotídeo: nas nossas artérias carótidas (as que levam o sangue oxigenado do coração para o cérebro), existem os chamados barorreceptores, que são um tecido nervoso especializado em detectar alterações de pressão. Algumas pessoas são mais sensíveis ao estímulo desses receptores. Neles, a massagem na região do seio carotídeo pode levar a desmaios.
  • Origem ocular: alguns pacientes podem ter desmaio durante o pressionamento dos olhos, ao exame ocular ou em uma cirurgia ocular.

É claro que esses casos são menos comuns e devem ser investigados por um médico competente. De qualquer forma, todos esses tipos de desmaio são considerados Síncope Vasovagal.

Sintomas Associados

Tontura

Sintomas como tontura podem indicar um desmaio iminente

Além dos desmaios, alguns pacientes podem apresentar o que chamamos de pré-síncope, que engloba sintomas antes do desmaio acontecer:

  • Sudorese;
  • Palidez;
  • Palpitações;
  • Náusea;
  • Hiperventilação (aceleração da respiração);
  • Bocejos.

Durante o desmaio, ainda é possível que alguns pacientes tenham o que chamamos de mioclonia (movimentos involuntários, rápidos, sem ritmo e em várias regiões) dos membros. Nesses casos, é importante diferenciar os episódios de uma possível crise convulsiva. No momento do desmaio, é ainda comum que os olhos fiquem desviados para cima e permaneçam abertos. Eles também podem fazer movimentos para um lado e para o outro, aparentando desorientação.

A respiração durante o episódio de desmaio pode tornar-se ruidosa. Algumas pessoas ainda podem grunhir, gemer ou bufar.

Em casos menos frequentes, pode haver incontinência urinária. A incontinência fecal é muito mais rara nesse caso e, se presente, deve indicar uma observação e avaliação mais cuidadosa.

É grave?

A Síncope Vasovagal ou desmaio comum não é grave, pois faz parte de uma falha transitória nos mecanismos que compensam a queda na pressão arterial, ocorrendo rápida recuperação após o episódio de desmaio.

Porém, sempre que houver um episódio de desmaio, esse deve ser diferenciado de outras causas de desmaio, como:

  • Doenças cardíacas: Arritmias e doenças estruturais do coração (como Isquemia Miocárdica, Doenças Valvares, Cardiomiopatias, Mixoma Atrial, Tamponamento Cardíaco). Nesses casos o desmaio pode ser sinal de algo mais sério, que deve ser investigado.
  • Hipotensão Postural e suas várias causas.

A Síncope Vasovagal ou desmaio comum não é grave. Porém, sempre que houver um episódio de desmaio, esse deve ser diferenciado de outras causas importantes de desmaio, que muitas vezes requerem tratamento específico.

É também importante diferenciar o desmaio de crises convulsivas (como na Epilepsia). Nesses casos, é comum episódios mais longos e a recuperação da consciência não é completa após o episódio (chamamos isso de síndrome pós-ictal). Incontinência urinária ou fecal são mais comuns, bem como abalos e movimentos estranhos dos membros.

Ainda é preciso excluir causas como:

  • Hipoglicemia (diminuição do “açúcar” – glicose – no sangue);
  • Hipoxemia (falta de oxigenação sanguínea adequada, que pode ocorrer por diversos motivos);
  • Isquemia vertebrobasilar (causada por um AVE – Acidente Vascular Encefálico ou Insuficiência Vertebrobasilar transitória).

Tratamento

O principal tratamento da Síncope Vasovagal é evitar o estímulo causador do desmaio. Ainda, é importante a ingesta adequada de líquidos e sal da dieta (exceto quando contraindicado).

Quando é possível perceber o desmaio antes dele acontecer (pré-síncope), algumas manobras podem ajudar a manter a pressão sanguínea estável e evitar (ou atrasar) o episódio:

  • Manobra da Manopla (Handgrip): basta fechar um ou ambos os punhos e forçar o máximo que conseguir. Você também pode segurar algum objeto e apertá-lo.
  • Cruzar as pernas.
  • Segurar um dos braços com o outro e apertá-lo.

Geralmente, com esse tipo de manobra e evitando os estímulos desencadeadores da síncope, a maioria dos pacientes são tratados. Para casos em que essas medidas não ajudam ou os episódios de Síncope Vasovagal são muito frequentes, podemos dispor de medicamentos como:

  • A Fludrocortisona;
  • Agentes vasoconstritores;
  • Beta-bloqueadores como o Atenolol (porém estão caindo em desuso por não serem muito úteis nesses casos).

Evitar estímulos que causem os desmaios, ingerir quantidade adequada de líquidos e sal e manobras específicas são o principal tratamento da Síncope Vasovagal. Em casos de difícil controle, medicamentos podem ser utilizados.

Em casos muito específicos (como síncopes muito frequentes e difíceis de tratar com as medidas anteriores), pode ser indicado o uso de um marca-passo cardíaco. Porém, as evidências científicas ainda são muito pequenas.

Esse foi nosso artigo sobre a Síncope Vasovagal. Espero que tenha gostado e se tiver qualquer tipo de dúvida ou queira relatar suas experiências sobre o assunto, deixe seu comentário!

Referências:

  1. Fauci, Anthony S. Harrison’s principles of internal medicine. 19ª edição. Vols. 1+2. McGraw-Hill Education, Medical Publishing Division (2015).
  2. Howard, P., et al. “The “mess trick” and the “fainting lark”.” British medical journal 2.4728 (1951): 382.
  3. Ortega, Javier, et al. “Lack of efficacy of atenolol for the prevention of neurally mediated syncope in a highly symptomatic population: a prospective, double-blind, randomized and placebo-controlled study.” Journal of the American College of Cardiology 37.2 (2001): 554-559.
  4. DynaMed [Internet]. Ipswich (MA): EBSCO Information Services. 1995 – . Record No. 116865, Vasovagal syncope; [atualizado em 07/10/2016, acessado em 05/11/2016]; Disponível em http://search.ebscohost.com/login.aspx?direct=true&db=dnh&AN=116865&site=dynamed-live&scope=site. Cadastro e login necessários.


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